Por: Rubens Ramiro Muzio
Em países do hemisfério norte, igrejas são
transformadas em boates, museus, clubes e até mesmo renovadas em mesquitas.
A igreja Missionary Alliance em Toronto, onde A.W. Tozer fora pastor
tornou-se um templo da Hari Krishna. Eu próprio, quando pastoreava numa
sociedade pós-cristã e pós-moderna no Canadá, presenciei de perto a
decadência e morte de algumas igrejas, como pacientes em estado terminal,
incapazes de recobrarem-se e de recuperarem-se. Finalmente, elas se
fecharam.
Isso pode muito bem acontecer no Brasil daqui alguns
anos. Nem sempre a história de países como Escócia, Inglaterra, Alemanha,
Irlanda e Canadá foi de fracassos e derrotas. Por exemplo, mais de 90% da
população canadense se dizia comprometida com o Reino de Deus, participante
de igreja, há 100 anos.
Atualmente, menos de 3% dos habitantes de
Toronto freqüentam ativamente uma igreja evangélica e a maioria absoluta
das denominações e igrejas locais continuam declinando. A história é
semelhante em vários países da Europa. Não é a toa que muitos estudiosos
afirmam que o eixo do cristianismo mudou-se para o hemisfério sul. A
maioria dos cristãos evangélicos encontram-se na Ásia, África e América
Latina.
Enquanto a igreja brasileira exibe certas qualidades do
avivamento como a criatividade, entusiasmo evangelístico, visível alegria,
vigor espiritual, muitos cristãos não produzem frutos em palavras e atos.
Sempre me impressionou a severidade com que Jesus tratou a figueira
estéril. Ele amaldiçoou-a dizendo: "Nunca mais produza fruto em ti". Em
João 14, o evangelista descreve a cena na qual Deus olha para a vida dos
crentes com os olhos do fazendeiro que verifica a plantação em busca de
frutos. As árvores frutíferas são melhoradas e aperfeiçoadas para que
frutifiquem mais ainda. As árvores infrutuosas são cortadas e queimadas.
Ary Velloso, meu amigo e companheiro na Sepal, costuma suspeitar
quando algum não-crente lhe afirma ter um amigo ou colega evangélico. Para
não incorrer no erro de assumir que a pessoa tem dado testemunho de Cristo,
ele então pergunta: "seu amigo é crente mesmo ou picareta"? Este mesmo
questionamento, evidenciado tantas vezes nos meios de comunicação, é
resultado de igrejas que vivem um cristianismo aparentemente estéril,
crentes que não produzem frutos dignos de arrependimento.
Paulo
chama de fruto do Espírito as virtudes do caráter descritas em Gálatas 5.22
e 23. No Salmo 1, da mesma forma que em João 14, o ser humano é comparado a
uma árvore: com muitos galhos, provindos da mesma raiz. Se a seiva da raiz
distribuída por entre os galhos é boa (amor, alegria, paz, longanimidade,
benignidade, domínio próprio, fé, etc.), então o fruto será de boa
qualidade. Mas se a seiva da árvore é ruim (prostituição, impurezas,
lascívia, iras, discórdias, ódio, ansiedade, medos, ressentimentos, etc.),
seus frutos serão mortais. Embora o fruto pareça ser igual em toda árvore e
as árvores pareçam ser todas iguais - semelhantes em forma, cor, tamanho e
cheiro - a diferença é percebida quando o fruto é experimentado. Isso
acontece freqüentemente entre cristãos genuínos e meros religiosos. São
parecidos, mas muito diferentes na essência.
Esta esterilidade e
falta de seiva espiritual pode estar ausente tanto das igrejas históricas
como pentecostais, neo-pentecostais ou carismáticas, liberais ou
conservadoras. Os pacotes e rótulos, cores e tamanhos, ministérios e
programas variam de denominação para denominação. Mas a essência é a mesma:
muitas folhas e poucos frutos, muitas nuvens e quase nenhuma chuva, muito
evangeliquês e nenhuma santidade, muito falar e pouco fazer. Apesar do
crescimento de folhas e desabrochar de flores, a esterilidade e
infrutuosidade permanecem.
Em o Novo Testamento fica claro que os
cristãos seriam conhecidos pelos frutos das boas obras, pela vivência de um
evangelho integral, pela diaconia e ação social, pelas obras de
solidariedade, etc. A árvore é conhecida pelo fruto que produz (2 Pd 2.17;
Lc 6:44). Jesus nunca afirmou que homens e mulheres seriam conhecidos pelas
suas folhas e flores: conhecimento teórico das histórias e doutrinas
bíblicas, experiências e visões espirituais, retórica e excesso de
palavras, elogios, abraços, extroversão e sorrisos, ou lágrimas, entusiasmo
e emoções fortes. "Pelos frutos os conhecereis", disse Jesus em Mateus
7.20-23. Nem todos aqueles que invocarem a Deus dizendo: "Senhor,
Senhor", serão salvos. Nem todos aqueles que participaram das igrejas,
expulsaram demônios, pregaram o evangelho, ensinaram a Bíblia, fizeram
milagres, serão salvos. "Apartai-vos de mim, os que praticais a
iniqüidade".
Jesus sabe muito bem distinguir as árvores frutíferas
daquelas que estão apenas repletas de folhas e improdutivas, mesmo que
exuberantes e verdejantes. Várias vezes, as Escrituras criticam aqueles
religiosos que fazem um show off de sua religiosidade. Eles são como uma
nuvem que parece estar encharcada de água, mas logo se dissipa com o vento
forte sem produzir a chuva necessária para a terra árida (Pv 25. 24 e Jd 4
e 12).