Por Administrator
17 / 09 / 2007
A. Introdução: Por que este assunto
Cresce em nosso meio o número de pessoas convertidas vindas de cultos
dedicados ao diabo, de centros de umbanda, macumba e outras instituições
religiosas denominadas de "espíritas". Cresce também o número de pessoas
oprimidas e dominadas por espíritos malignos, à semelhança do homem que se
encontrou com Jesus na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc. 1.21-26). Tem
crescido também a identificação por alguns grupos de que comportamentos
como agressividade, erro doutrinário, vícios, linguagem obscena, oposição
ao Espírito Santo, nervosismo exagerado, vozes roucas, etc, tratam-se de
opressão e possessão demoníacas.
Esta Carta Pastoral tem o objetivo de esclarecer o nosso povo, em meio a
tantas opiniões, sobre a abordagem bíblica-teológica correta desse tema.
Têm se introduzido em nosso meio práticas e conceitos de toda ordem,
encontrando, em alguns momentos, nossas igrejas despreparadas para tratar
do assunto. Reconhecemos que esta Carta Pastoral tem limites. Na verdade
ela é uma introdução, mas com orientações claras do que a Bíblia diz, de
como a Igreja Metodista interpreta tal assunto e de como devemos
proceder.
B. A visão bíblica sobre o assunto
No Antigo Testamento, o diabo é identificado pelo termo satã. Como
pessoa, ele é mencionado explicitamente em alguns textos provenientes da
comunidade judaica pós-exílica. Tais citações (1Cr 21,1; Zc 3,1-2) são
feitas a partir do desenvolvimento teológico, fruto das influências persas
no pensamento do povo de Deus que reconstruiu Jerusalém, o templo e sua
vida social e religiosa na Palestina a partir de seu retorno de Babilônia.A
outra citação explícita no Antigo Testamento (Jó 1,6ss) embora apareça em
nossas versões bíblicas de forma a caracterizar nome próprio, por causa das
dificuldades de interpretação vem sempre acompanhada nas Bíblias em
inglês, espanhol e alemão, de uma nota explicativa sobre o termo satã
,assinalando que pode ser também traduzido simplesmente como "o
adversário".
Implicitamente, o personagem maligno esta presente em textos como Ex
4,24-26;12.29 e 2Sm 24,16-17, não sendo nomeado, simplesmente por não haver
a preocupação teológica de identificar a origem do mal no período
pré-exílico. As ações descritas nestes textos seriam mais próprias,
teologicamente falando, de um ser devotado ao mal.A tradição da igreja,
inclusive ensinada por João Wesley, interpretou os textos de Is 14,12-15 e
Ez 28,12- 15 como a descrição de Satanás, um anjo criado por Deus, decaído
e rebelado contra Deus, arrastando em sua loucura outros anjos, formando as
hostes infernais.O Novo Testamento descreve de maneira bem específica que o
confronto com Satanás ou diábolos é freqüente no ministério de Jesus.
Logo após o batismo, Jesus se retira para o deserto para jejuar e orar,
preparando-se para cumprir com seu ministério; ali é tentado pelo diabo
(cf. em Mt. 4.1-11).
O objetivo da tentação era provocar Jesus para que ele atendesse aos
apelos do tentador e assim abandonasse o Plano de Deus.Temos que levar em
conta que Jesus não foi tentado apenas neste seu momento no deserto.
Durante sua vida e ministério a tentação sempre esteve presente: Em João
6.15 a multidão quer aclamá-lo rei; em Mateus 16.1 os fariseus e saduceus
pedem um sinal; em Lucas 11.16 a multidão pedia um sinal; em Marcos 8.32
Pedro repreende Jesus depois de ter anunciado sua morte na cruz; em João
18.10, por ocasião da prisão de Jesus, Pedro usa a espada para impedir sua
prisão; em Mateus 26.27-28 os soldados cuspiram em Jesus e bateram-no
desafiando Jesus a descer da cruz e em Mateus 27.40 um dos ladrões na cruz
desafia Jesus. Estes que tentavam a Jesus não tinham nenhum compromisso com
sua mensagem e com o Reino de Deus.As tentações de Jesus nos apontam as
três principais áreas em que os cristãos são tentados pelo diabo:
1) Necessidade física, de subsistência, que todos têm. Ele sabia que
Jesus, depois de tantos dias em jejum, tinha fome. Então propôs que
transformasse as pedras em pão. Jesus afirma que não só de pão vivemos, mas
da palavra que vem da boca de Deus;
2)Necessidade de sustento para nossa alma, nossas carências emocionais
internas. Jesus estava só. Muitos, em solidão, necessitam de alguém que
tenha interesse por eles, que cuide deles; foi nisso que o diabo tentou e
Jesus respondeu: "Não tentarás o Senhor teu Deus". Em Deus podemos
esperar, confiar, por mais só que estejamos;3) Necessidade de ter coisas
para a nossa vida, como roupa, casa, saúde, dinheiro suficiente para a
sobrevivência, emprego; então em cima disto vem à tentação da cobiça de ter
cada vez mais, não importando os meios. Na tentação Jesus ouviu esta
proposta: "Te darei todos os reinos e suas riquezas, se prostrando me
adorares". Jesus o repreendeu e o expulsou, dizendo: "Está escrito: ao
Senhor teu Deus adorarás e só a Ele darás culto." Jesus ensinou o caminho
para que seus discípulos resistissem a tais tentações:
1) "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na
verdade está pronto, mas a carne é fraca " (Mt). 26.41). Sem uma vida de
oração e vigilância espiritual o cristão se torna presa fácil nas mãos do
tentador. Pedro advertiu: " O diabo, nosso adversário, anda em derredor
como leão que ruge, procurando alguém para devorar" (I Pe 5.8);
2) "Jesus foi guiado pelo Espírito ao deserto...". Não é possível
vencer o adversário na força da carne: o diabo é espírito e deve ser
vencido pela força e discernimento do Espírito Santo em nós; foi assim com
Jesus e deve ser assim conosco;
3) "Jesus, porém, respondeu: Está escrito...". Jesus usou, sempre,
neste confronto as Escrituras Sagradas, a Bíblia. A Bíblia é uma arma do
crente no seu confronto com a tentação posta pelo diabo. Devemos ter
cuidado e discernimento, pois uma das estratégias de Satanás é trazer
descrédito à autoridade da Bíblia, porque ele sabe que dela vem conselho e
força de Deus. Em todas as reformas em Israel, a redescoberta da Palavra de
Deus foi instrumento básico (II Cr 34.14-21); o mesmo aconteceu com a
reforma liderada por Lutero;
4) "... esta casta não se expele senão com oração e jejum" (Mc 9.29).
Esta expressão aponta uma ação de ataque às cidadelas do diabo na vida de
pessoas. Neste tipo de confronto, o cristão precisa de uma preparação
espiritual, onde entra a oração e o jejum e a disciplina espiritual.
C. Como a Igreja Metodista considera este assunto
Vejamos uma das abordagens do Revdo. João Wesley, fundador do Metodismo,
sobre o confronto com o diabo e seus demônios. A primeira afirmação contida
no Sermão de Advertência Contra o Sectarismo, onde Wesley comenta a palavra
de Jesus a João, quando este informava terem proibido alguém de expelir
demônios em nome de Jesus, visto este não fazer parte do grupo de
discípulos: " Disse-lhes João: Mestre, vimos um homem que, em teu nome,
expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não
seguia conosco. Mas Jesus respondeu: Não lho proibais; porque ninguém há
que faça milagre em meu nome e, logo a seguir, possa falar mal de mim"
(Mc 9.38-39). Vejamos o que Wesley disse: "Quero mostrar, primeiro, em
que sentido os homens e mulheres podem agora expelir demônios, e de fato o
expelem. Para que se tenha um conceito claro no tocante a este assunto,
lembrarei que (segundo os registros bíblicos) como Deus vive e opera nos
filhos da luz, o diabo vive e opera nos filhos das trevas. Como o Espírito
Santo possui a alma dos bons, assim o espírito mau possui a alma dos
ímpios. Porque o diabo não é para considerar-se apenas como um leão
rugindo, não meramente como um inimigo sutil que se lança de improviso
sobre as pobres almas e leva-as cativas à sua vontade, mas como o que nelas
anda, que governa as trevas ou a maldade deste mundo (dos homens do mundo e
todos os seus tenebrosos desígnios e ações), tomando posse de seus
corações, ali estabelecendo seu trono e reduzindo todopensamento à
sujeição. Está continuamente operando nos filhos da desobediência"
1. João Wesley estabeleceu duas formas de possessão ou dominação do diabo
sobre as pessoas e as estruturas sociais. Diz ele: "É, pois, uma verdade
inquestionável, que o deus e príncipe deste mundo ainda possui a todos que
não conhecem a Deus. Somente a maneira pela qual ele agora os possui difere
do processo dos tempos antigos. Então, com freqüência, lhe atormentava o
corpo assim como a alma, e isto abertamente, sem qualquer disfarce; agora
ele lhes atormenta apenas a alma (salvo raras exceções), e fá-lo tão
veladamente quanto possível. É clara a razão de semelhante diferença; seu
objetivo era então levar a humanidade à superstição, por isso operava tão
abertamente quando podia. Agora, porém, seu objetivo é induzir-nos à
infidelidade; por isso age tão cautelosamente quanto pode: mais disfarçado
se apresenta, mais avassalador se torna."
2·. Assim, muitas outras orientações são dadas por João Wesley, mas aqui
foi apresentado o essencial.
D. Orientações práticas sobre o assunto
1) Não se vence os ataques do diabo com amuletos e rezas. É muito
freqüente a influência mística cristã, onde se pratica o exorcismo com
objetos e rezas mágicas. Estas práticas são totalmente sem fundamento
bíblico, e procedem de religiões pagãs. Assim também, o uso da Bíblia na
cabeça do endemoniado, ou a Bíblia aberta nos cômodos da casa, por si só
não produzem efeito algum; o mesmo se dá em relação à cruz, tão usada em
filmes de vampiros e demônios, não possuem poder por si mesmas. Rezas
repetidas também carecem de eficácia em si mesmas. Esses ataques se vencem
pela fé em Jesus Cristo.
2) A Bíblia recomenda que resistamos ao diabo e ele fugirá de nós (Tg
4.7). Esta resistência é um ato de perseverar na fé redentora em Cristo
Jesus, que veio com poder para destruir as obras do maligno. O diabo é
espírito maligno que não pode ser vencido por nossa força carnal, mas sim
pela força e poder do Espírito de Deus que opera em nós e através de nós.
Nossa fé em Cristo, nossa vida verdadeira, íntegra e santa é algo que o
diabo não pode enfrentar. Basta fé, unção do Espírito de Deus, coragem para
enfrentar o diabo, e ele fugirá de nós. Devemos lembrar que Jesus conferiu
essa mesma autoridade sobre espíritos malignos aos seus discípulos (cf. Mt
10.1; Lc 10.17).
3) Nunca, sobre hipótese alguma, podemos permitir que o diabo, ao
atormentar uma pessoa, interrompa nosso culto a Deus. Havendo uma
manifestação, não deixemos que isto vire um show e atrapalhe o culto que é
devido a Deus. Imediatamente, irmãos e irmãs fiéis e idôneos devem retirar
a pessoa oprimida ou possessa para um lugar reservado, ajudá-la a
libertar-se da opressão e tratá-la com todo amor e carinho. Enquanto isso,
o culto deve prosseguir normalmente, valorizando-se a ação da Graça e do
Espírito Santo de Deus e não a experiência de opressão maligna.
4) Devemos distinguir, através do dom do discernimento de espíritos, se a
manifestação é de fato possessão demoníaca, pois há diversas enfermidades
psíquicas que produzem reações que podem ser confundidas com possessão
demoníaca. Tal confusão pode ser altamente danosa para a pessoa atingida.
Devemos ser humildes e reconhecer que algumas pessoas precisam de
acompanhamento profissional de um psicólogo ou psiquiatra. Nesses casos
precisamos reconhecer também que existem paralelamente necessidades
espirituais, e estas devem ser tratadas pelo pastor ou pastora em
aconselhamento pastoral.
5) Devemos, ainda, sublinhar com todas as pessoas que a vitória sobre as
forças do diabo se dá através de uma contínua confissão de pecados e
compromisso com Jesus e o Evangelho do Reino de Deus. As palavras do
apóstolo João nos dão esta orientação: " Filhinhos, não vos deixeis
enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele
é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive
pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para
destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na
prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse
não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os
filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça
não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão. ." (I Jo 3.7-
10).
6) Textos para ler e meditar: Mt 8.28- 34; Mt 9.32-34; Mt 10.1; Mt
12.22-32; Mt 12.43-45; Mt 17.14-21; Mc 1.21- 28; Mc 1.32-34; Mc 3.7-12; Mc
9.24-29; At 13.4-12; At 19.13-17; II Co 10.3-5; Ef 2.1-3; Ef 6.11-18. Em
que áreas da vida Jesus foi tentado pelo diabo? Quais recursos Jesus
utilizou para vencer as tentações do diabo? Quais as maneiras pelas quais o
diabo atua, segundo João Wesley?
E. Conclusão
Ao concluirmos essa carta pastoral queremos lembrar que a missão primeira
da igreja é fazer discípulos de Jesus Cristo. O trabalho de libertação da
opressão e possessão demoníacas deve ser visto sempre a partir dessa
perspectiva: permitir que a pessoa possa fazer uma opção consciente pela fé
em Jesus Cristo, o aceite como Salvador e Senhor de sua vida, e se envolva
no projeto do Reino de Deus. Essa tarefa, ou qualquer outra que fazemos em
nome de Jesus, não pode ser realizada na nossa própria força ou sem
discernimento espiritual. Assim, como pastores e pastora da igreja, oramos
para que o Espírito Santo continue capacitando os irmãos e irmãs para o
exercício dos ministérios que Deus tem confiado a cada um e cada uma.No
amor de Jesus,
Bispo João Carlos Lopes – Presidente do Colégio Episcopal Bispo Luiz
Vergilio Batista da Rosa – Vice-Presidente do Colégio Episcopal Bispo
Adonias Pereira do Lago – Secretário do Colégio Episcopal Bispo Adolfo
Evaristo de SouzaBispo Adriel de Souza MaiaBispa Marisa Freitas
CoutinhoBispo Paulo Tarso de Oliveira LockmannBispo Roberto Alves de
SouzaBispo João Alves de Oliveira FºBispo Josué Adam LazierBispo Geoval
Jacinto da SilvaBispo Nelson Luiz Campos LeiteBispo Paulo Ayres MattosBispo
Richard dos Santos CanfieldBispo Rozalino DomingosBispo Stanley da Silva
Moraes
São Paulo, 05 de agosto de 2007.