Espírito de Calebe

Pr. Cesinha Sitta

Constantemente selecionamos pessoas para admirar e seguir. De forma natural, estas pessoas se tornam referências para nós, as quais queremos imitar.

A Bíblia nos mostra que isto já acontecia muito antes dos tempos atuais. Eliseu é o exemplo de um homem que possuía grande admiração por seu líder Elias (2 Rs 2.9).

Deus também deixou descrito em sua Palavra exemplos, modelos, homens e mulheres que são referenciais para nós. O capítulo 11 do livro de Hebreus fala a respeito destas pessoas, as quais o mundo não era digno (Hb 11.38a). O versículo 1 deste capítulo conceitua a fé como sendo “a certeza das coisas que se esperam e a convicção das coisas que não se vêem”, porém os demais versículos falam simplesmente de como a fé atuou nestes homens e mulheres. O autor segue falando no capítulo seguinte que devemos correr nossa carreira inspirados por esta “tão grande nuvem de testemunhas” (Hb 12.1).

Neste estudo, apesar de termos muitos exemplos a serem seguidos, quero falar sobre Calebe e o espírito que havia em sua vida. Deus deseja que tenhamos este mesmo espírito, pois um povo que o possui, possuirá também tudo o que este grande homem conquistou em Deus, para si e para sua descendência.

Para isso, existem algumas coisas que precisamos entender:

 

I. Recebendo o espírito de outro sobre mim.

A Bíblia deixa claro que só existem dois tipos de espírito: o bom e o mal. Isto não significa que a pessoa viva recebe o espírito daquela que já morreu, mas significa que o Espírito Santo age em determinadas pessoas da mesma forma que já agiu em outra. Apesar de parecer estranho, isto é biblicamente comprovado.

Houve um momento, por exemplo, em que Moisés, motivado por seu sogro, desejou estabelecer uma nova liderança. Ao consultar o Senhor, este o direciona a selecionar outros 70 homens, dos anciãos de Israel. Diante da Tenda da Congregação, Deus desceria e tiraria do espírito que havia em Moisés e colocaria sobre estes homens escolhidos, e foi assim que sucedeu (Nm 11.16-17).

Em 2 Reis 2.15 a Bíblia nos conta que no momento em que Elias é arrebatado em carros de fogo, seu espírito repousou sobre Eliseu, o que foi testemunhado por alguns filhos dos profetas. Tempos depois, nasce João Batista, o qual também carregava a virtude e o espírito de Elias, a fim de poder preparar o caminho para o Senhor (Lc 1.17).

E de que maneira posso receber o espírito e a coragem de outra pessoa? A resposta é: tendo as mesmas atitudes que ela teve. Não é por meio de uma oração, mas diante de posturas repetidas.

II. O espírito de Calebe.

Deus elogia o espírito que havia em Calebe, pois o mesmo o levou a perseverar em segui-Lo, como está escrito:

Porém o meu servo Calebe, porquanto nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o levarei à terra em que entrou, e a sua descendência a possuirá em herança.

Números 14.24

 

Agora fica claro que Calebe foi abençoado de acordo com suas posturas. Isso nos leva a crer que a promessa de Deus é que todo aquele que tomar estas mesmas atitudes, receberá a bênção por igual. Precisamos, então, ter um coração disposto a viver como ele viveu. Para isso, enumerei algumas atitudes que Calebe teve que o fez se tornar em um grande homem de Deus:

 

1. Em Calebe havia outro espírito.

Quando Deus fala que em Calebe havia outro espírito, ele faz referência a um espírito que reprovava: o espírito que havia nos dez espias.

Moisés envia doze homens para Canaã, com o objetivo de espiar a terra. Eles foram e retornaram após quarenta dias, com relatórios divergentes. Dez deles apresentaram-se extremamente pessimistas, porém, Calebe, juntamente com Josué, discordando de seus companheiros, afirmaram que certamente tomariam a terra prometida.

O espírito que havia na maioria destes homens era ruim e, por isso, foram reprovados por Deus. A Bíblia conta que eles, com sua maneira de pensar e, consequentemente com suas palavras, infamaram a terra a qual Deus havia preparado (Nm 13.32).

Calebe foi diferente, pensou e agiu de forma diferenciada e, por isso, foi aprovado por Deus. Ele não concordou com o que a maioria havia dito. Não agiu como a maioria e não foi influenciado por ela. Deus se agrada de pessoas que se destacam por ter um espírito como o dele, diferente dos demais.

A Bíblia também fala a respeito de Daniel, cujo espírito foi chamado por Deus de "excelente", como está escrito:

Então o mesmo Daniel sobrepujou a estes presidentes e príncipes; porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava constituí-lo sobre todo o reino. 

Daniel 6.3

Fica claro neste versículo que Daniel apenas se sobressaiu dos demais por que havia nele este espírito excelente. Nós também precisamos buscar por este espírito, tendo as mesmas posturas que Calebe insistiu em ter. Se esperamos ser pessoas diferentes, então é necessário agir de forma diferente.

 

2. Uma boa visão das situações.

A maioria dos espias percebeu a riqueza que havia em Canaã, porém, seus olhos se voltaram especialmente para as dificuldades que deveriam ser superadas. Em seu relatório desanimador, disseram:

O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as cidades fortificadas e mui grandes; e também ali vimos os filhos de Anaque. Os amalequitas habitam na terra do sul; e os heteus, e os jebuseus, e os amorreus habitam na montanha; e os cananeus habitam junto do mar, e pela margem do Jordão.

Números 13.28-29

 

Na visão destes homens, conquistar a terra prometida seria impossível. Seus olhos viam somente dificuldade e desgraça. Esta, infelizmente, era a visão da maioria do povo de Israel, que constantemente murmurava, desejando voltar para o Egito, lugar de escravidão.

Todavia, Calebe, cuja visão era diferenciada, declarou:

Certamente subiremos e a possuiremos em herança; porque seguramente prevaleceremos contra ela.

Números 13.30

 

Certamente Calebe se deparou com as dificuldades daquela terra, porém, elas não foram maiores que sua visão de fé, baseada no poder e na palavra e da promessa feita pelo Deus Todo-Poderoso.

 

3. Uma visão boa de si mesmo.

Além de possuir uma boa visão diante das circunstâncias, Calebe possuía uma visão correta a respeito de si mesmo. Enquanto os seus companheiros consideravam-se apenas como gafanhotos (Nm 13.33), ele via-se como alguém cuja força estava em confiar no seu Deus. Ele disse:

Tão somente não vos rebeleis contra Yahweh, o SENHOR. Não tenhais medo do povo daquela terra, pois os devoraremos como um bocado de pão. Sua sombra protetora lhes foi retirada, ao passo queYahweh, o Eterno, está conosco. Portanto, não tenhais qualquer receio deles!”

Números 14.9 [KING JAMES] [grifo do autor]

A certeza de Calebe de que tomaria posse da terra prometida não vinha de sua própria força, mas de saber quem ele era em Deus e, consequentemente, do que Ele poderia fazer por amor ao seu povo.

 

4. Uma linguagem poderosa.

A visão de Calebe foi plenamente coerente com sua linguagem. Esta linguagem apenas refletiu o que havia em seu coração. A palavra de Deus diz que a boca fala somente do que o coração está cheio (Mt 12.34). A Bíblia também fala que nossa língua faz todo o corpo responsável pelas consequências de suas palavras (Pv 18.20). No versículo 21 deste mesmo capítulo a Bíblia diz:

A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que a usam habilmente serão recompensados.

Provérbios 18.21

Aqueles homens que não souberam usar sua língua receberam a morte como consequência. No capítulo 14 de Números, no versículo 37 está escrito que os mesmos homens que infamaram a terra morreram de praga perante o Senhor. Deus havia prometido que eles não entrariam na terra prometida, nem todos os outros de 20 anos para cima, porquanto murmuraram contra o Senhor (Nm 14.29-30). Suas atitudes foram tão graves perante Deus que a consequência se estendeu a muitos outros israelitas.

Existem outros exemplos ruins na Palavra de Deus, exemplos de pessoas que não tinham uma linguagem poderosa. Entre eles está a viúva que foi atendida por Elias. Quando o profeta lhe pediu um bocado de pão, ela declarou: "[...] nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija" (1 Rs 17.12). Mal ela sabia que este pouco se multiplicaria em quantidade inesgotável diante do Senhor. Porém, existem exemplos poderosos, como o de Davi, que afirmou ao gigante Golias, diante de todo o exército, que naquele mesmo dia Deus o entregaria em suas mãos e que lhe arrancaria a cabeça e a daria às bestas do campo (1 Sm 17.46). A Palavra de Deus também nos mostra a história de uma sunamita, que, ao perder o único filho e ser questionada a respeito de como se sentia, declarou: "Tudo vai bem" (2 Rs 4.26).

Podemos perceber, diante de tantos exemplos, que nossas palavras refletem o que realmente acreditamos.

 

5. Soube suportar a pressão.

Calebe demonstrou saber viver em meio a tempos difíceis. Por causa de sua linguagem poderosa, Deus lhe promete, por meio de Moisés, que ele e sua descendência possuiriam a terra a qual pisassem por herança. Apesar de ter sido elogiado por Deus, fica outros 45 anos no deserto, debaixo de muita pressão, ouvindo e vendo a reclamação e murmuração dos israelitas. Ele não somente conseguiu suportar o tempo no deserto como também soube guardar seu coração. Ele declarou:

E agora eis que o Senhor me conservou em vida, como disse; quarenta e cinco anos são passados, desde que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e agora eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; E ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar.

Josué 14.10-11

 

Após todo este tempo, Calebe manteve-se o mesmo. Este versículo mostra que havia nele a mesma força de outrora. Aos 85 anos, ainda estava disposto a entrar e sair de guerras. Isto tudo porque soube conviver em meio à pressão, suportando a consequência do pecado dos seus irmãos israelitas, quando ele mesmo não a merecia.

Esta habilidade de suportar pressão vinha de seu próprio nome e família. O nome "Calebe" significa "violento" e o nome de seu pai, "Jefoné", significa "aquele que encara". Foi exatamente isto que ele fez, agiu violentamente contra falatórios e oposições, encarou corajosamente o medo e seus limites, até que, por fim, conquistou a terra tão sonhada.

 

6. Reconhece autoridade sem substituir ao Senhor.

Durante todo o tempo nômade no deserto, Josué foi obediente à liderança de Moisés, apesar deste ter errado e não ter entrado na terra prometida. Ele vê tudo isso acontecer, e, mesmo assim, manteve-se fiel a Deus. Tempos depois, Moisés morre, e é substituído por Josué, seu colega e amigo.

Apesar de vivermos debaixo de liderança humana, não podemos deixa-los tomar o lugar de Deus em nosso coração. Calebe não se abalou ao presenciar a troca de liderança, pois sabia que dependia diretamente do Senhor.

Durante nossa carreira, seremos guiados por pessoas levantadas por Deus. Nós as veremos errar, falhar e até desistir. Porém, se somos guiados por Jesus e se nossos olhos estiverem fitos Nele, jamais seremos abalados.

Calebe soube que seu líder não entraria na terra prometida, mas não se desanimou. Ele superou os limites de seu líder e não se deixou ser influenciado por eles.

Conhecemos outros exemplos na Bíblia parecidos com este. Davi, por exemplo, o homem segundo o coração de Deus, tinha como líder a Saul, um rei falho, imaturo e desobediente. Davi, porém, o honrou até o fim, e, por isso, tornou-se uma grande referência. E quanto aos líderes de Ana e de seu filho, o grande profeta Samuel? Eli, um homem tão cheio de iniquidade que nem ouvir a voz de Deus conseguia mais. Nem por isso o profeta se tornou limitado.

Se desejamos ter em nós um espírito inabalável, então Deus precisa ser nosso líder e nossa maior referência até o fim de nossas vidas.

 

7. Foi movido por uma promessa.

Tudo o que Calebe conquistou foi por meio de uma promessa feita à ele por Deus, por meio de Moisés. Após 45 anos de espera, ele vai até Josué, líder na época e o lembra desta palavra, dizendo:

Então Moisés naquele dia jurou, dizendo: Certamente a terra que pisou o teu pé será tua, e de teus filhos, em herança perpetuamente; pois perseveraste em seguir ao Senhor meu Deus.

Josué 14.9

 

Calebe tinha um sonho e não parou até que o viu se realizar. Ele se moveu pela promessa. Ela era o seu combustível. Todo aquele que também possui o espírito de Calebe, vive da mesma forma. Apesar de terem-se passado vários anos, não se esqueceu do que lhe havia sido prometido.

Assim como Calebe, precisamos nos lembrar do que já nos foi prometido, pois não morreremos até que tudo aconteça.

Simeão era um judeu que esteve vivo no tempo de Jesus. A Bíblia diz que ele era justo, cheio do Espírito Santo e temente a Deus. Ele vivia esperando pela consolação de Israel, pois a ele havia sido revelado, pelo Espírito, que não morreria antes que visse o Salvador (Lc 2.25-26) e porque esperou e se moveu pela promessa, disse:

Ele, então, o tomou em seus braços [JESUS], e louvou a Deus, e disse:
Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra;
Pois já os meus olhos viram a tua salvação.


Lucas 2.28-30 [complemento do autor]

 

A Bíblia também nos fala de Abraão, que, apesar de velho, estava certíssimo de que o que Deus lhe havia prometido, se cumpriria (Rm 4.21), por isso, Isaque nasce e se torna um patriarca abençoado.

 

8. Aceitou desafios: a montanha!

Calebe, em sua bravura, não caiu na tentação da vida fácil. O espírito que havia nele o movia a correr por coisas difíceis de serem conquistadas.

Apesar de haver planícies e grandes campos nos territórios de Canaã, Calebe pede pela montanha, um grande desafio. Ele disse a Josué:

Agora, pois, dá-me este monte de que o Senhor falou aquele dia; pois naquele dia tu ouviste que estavam ali os anaquins, e grandes e fortes cidades. Porventura o Senhor será comigo, para os expulsar, como o Senhor disse.


Josué 14.12 [grifo do autor]

 

Calebe não sofreria as dificuldades de conquistar uma montanha apenas, ele também deveria derrotar os gigantes que moravam ali e as grandes cidades fortificadas. Apesar de tudo isso, ele aceitou o desafio, não movido, mais uma vez, pelo que via e sim pela ousada confiança que tinha em Deus.

Na conquista de pessoas e cidades, que muitas vezes se parecem com montanhas e gigantes aos nossos olhos, precisamos cuidar para não cair na tentação do caminho fácil, pois este não é o de Deus (Mt 7.13-14).

Foi por meio desta estratégia que Satanás tentou Jesus no deserto, oferecendo-lhe coisas rápidas e fáceis em troca de poder, reconhecimento e fama. Para poder dar a Jesus todos os reinos do mundo juntamente com seu esplendor, Satanás pede a Jesus somente que o adore (Mt 4.8-9). Ora, Jesus sabia que o caminho de Deus para a salvação da humanidade seria a morte, um caminho incomparavelmente mais difícil, mas foi este que Ele percorreu (Jo 3.16).

Quem tem escolhido o caminho mais fácil tem escolhido adorar Satanás: mentindo, burlando, ferindo e sendo corrupto. Nós não podemos cair nesta tentação. Precisamos aceitar o desafio do difícil, assim como Jesus!

 

9. Derrubou gigantes e transformou contextos.

Diante de todas estas posturas que arrancaram elogios do Senhor, não podemos esperar outro resultado na vida de Calebe. Em Josué 15.3 está escrito:

Mas a Calebe, filho de Jefoné, deu uma parte no meio dos filhos de Judá, conforme a ordem do Senhor a Josué; a saber, a cidade de Arba, que é Hebrom; este Arba era pai de Anaque. E Calebe expulsou dali os três filhos de Anaque: Sesai, e Aimã, e Talmai, gerados de Anaque.


Josué 15.13-14

 

Calebe e todos aqueles que possuem este mesmo espírito são verdadeiros destruidores de gigantes. Se existem situações em nossa vidas que se parecem com gigantes, não serão difíceis de derrota-las quando se tem o espírito de Calebe, quando se é agressivo espiritualmente.

Calebe não mata apenas um, mas todos aqueles que precisavam ser mortos (v.14). O lugar, que antes era nomeado em homenagem a Arba, um poderoso gigante, depois da conquista de Calebe, passou a chamar-se Hebrom.

Em Gênesis 23.2 podemos perceber um pequeno detalhe na Palavra de Deus. A Bíblia diz:

E morreu Sara em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; e veio Abraão lamentar Sara e chorar por ela.

 

Sara morreu em Quiritate-Arba, a mãe do filho da promessa. Arba era o pai de Enaque, o gigante. Quando Deus faz uma promessa a Abraão, ele tenta gerar esta promessa por meio de Agar, a escrava. Porém, foi com Sara que Deus prometeu que Isaque seria gerado. Sara simbolizava a promessa de Deus, porém, estava enterrada ali, debaixo dos pés dos gigantes, como quem havia sido derrotada e as promessas, acabadas. Não somente a promessa do nascimento de Isaque parecia ter sido abalada, mas também a de uma grande multidão que viria por meio de  Abraão. Calebe sabia de tudo isso, e imagino que quando chegou diante de Josué a clamar por sua montanha, ele também desejou o espírito que havia em Sara, o de uma mãe de multidão. Calebe quis também ser um pai de nações, um gerador de filhos e filhas para o Senhor. Sua vida glorificou a Deus; ele terminou bem, em sua montanha, dando herança à sua família.

 

CONCLUSÃO

Sabemos que é desejo de Deus entregar territórios para seus filhos. Sua vontade é que todos sejam salvos (1 Tm 2.4). Se desejamos tomar posse dessas terras e ter a vida que Calebe teve, devemos então ter a coragem de assumir as mesmas posturas e, assim, teremos tido uma vida que glorifica o nome do Senhor. Ele é digno de nossas conquistas, dos gigantes que matamos todos os dias e da multidão que conquistamos ao longo das gerações.